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segunda-feira, 28 de março de 2011

PARECE QUE SIM:

Que Mau-Mau será publicado. Vamos ver. Estou curioso para saber  a reacção das  pessoas  a um livro diferente. Não creio que seja arrumado na prateleira da literatura de aeroporto, mas também não me parece que venha sequer a ser considerado literatura. Não carrega profundas descrições tipológicas, muito menos penetrantes reflexões  filosóficas.
É uma história simples, mas julgo que vai agarrar o leitor que entre  na táctica. Então para quê publicar o livro? Porque é contra a esperança, salvo se esta vier com um prato de favas novas. E tenras.

quinta-feira, 24 de março de 2011

FUTEBOL KIKUYU (III):

Augustine Omondi jogou   (  entre  1985 e 2001)  toda  a vida no Chemelil Sugar FC, pertencente à Chemelil Sugar Company, no Nyando. Vivia em Kisumu ( era ajudante de mecânico)  e fazia todos os dias um total de 100 quilómetros. O clube da empresa oferecia boas condições, mas Augustine  não sabia isso. Não lia jornais, não via televisão ( pelo menos programas desportivos como os europeus), não viajava. O seu prazer  era ficar lá na ponta direita, receber na passada as bolas altas que  os companheiros lhe punham à frente, correr desalmado para a linha de fundo e centrar. Fazia lembrar o Padinha, esse extremo-direito lançado pelo Lajos Baroti ( ou pelo Eriksson, já não me lembro bem), que se especializou também  num único movimento.
Augustine era daqueles homens tão simples, que nunca estão verdadeiramente alegres nem zangados. Comia o que havia  - primeiro em casa da mãe, depois em casa de Aleta, companheira que lhe deu três filhos-, bebia o que lhe davam, fazia o que tinha de fazer. Estava sempre tudo kabisa msuri ( absolutamente bem). Não tinha muitos amigos porque não era de disputas.
No ano passado, soube que Augustine estava doente de coisa  ruim. Não entendi  tudo, talvez uma infecção mal tratada, um foco pneumónico que  deu para  o torto. Imagino-o sozinho, no pequeno hospital em Kisumu. Sempre sereno,  educado e paciente.
Quem diz que vemos a força?
A TODOS:

Os que linkaram este Mau-Mau, o meu asante ( obrigado) , é o que vos digo kwa furama ( com satisfação). São tantos que  vai sem links: O Eduardo Pitta, o Luís  M. Jorge, o Cahimbo de Magritte, Os Comediantes, o Espectador Interessado,  o Pedro Rolo Duarte, a Isabel Prata, O Luís Januário, o Delito de Opinião ( o Pedro Correia e a Laura Ramos) , O Angulo Morto, O Albergue Espanhol ( Luís Naves).

( em actualização)

terça-feira, 22 de março de 2011

NESTA ALTURA DO CAMPEONATO:

Estive  a rever o terceiro golo de ontem, do Gaitán:  a melhor jogada colectiva  da Liga. Uma das coisas que me tem enternecido é constatar a raiva da tropa de choque ( os Mau-Mau atacavam de frente, mas esse eram valentes e estes são iguais  ao calhaus que atiram emboscados)  do FCP , sempre impune, nesta altura do campeonato.
Eles  estão à frente, o melhor futebol é nosso.  E não há nada a fazer.
 FUTEBOL KIKUYU (II):

Freddy Odhiambo nunca soube fintar. Quando jogava na rua, em Thika,  40 km  a nordeste de Nairobi, o seu pensamento  era colonial. O seu tio ,  não era bem tio, era um dos amantes da sua mãe  - prostituta nas horas que  os oito  filhos lhe deixavam vagas - contava-lhe antigas histórias de caça dos homens brancos   nas margens do rio Thika  ( que faz parte da bacia do Lago  Tana) e também mais  para oeste,  no lago Naivasha ( de Nai'posha, águas selvagens). Aí caçou um branco chamado Black, Alan Lindsey Black. Este caçador branco tinha nome de negro e caçou leões com um rancheiro, e também caçador, Paul Rainey, dono de milhares de cabeças de gado  no Falcon Glen, nas margens do lago. Black caçava com cães , o que levou  a que um oficial inglês , encarregado das licenças de caça, tivesse relatado para Londres:  Foi quem matou mais leões este ano ( 1911), mas não é certo que o seu método seja desportivo.
Odhiambo conseguiu  chegar à primeira  equipa do Thika United em 1989. Tinha então 19 anos. Como não sabia fintar e andava   sempre com  fotocópias velhas e  amarfanhadas de livros  de histórias de white-hunters, não teve vida fácil junto do seus companheiros. Odhiambo gostava de jogar a trinco e via os médios  adversários como os  cães de Black. Ele era o leão  que não sabia fintar. Ainda assim, acabou por conquistar um lugar na equipa, mas os seus camaradas  nunca o convidaram  para as bebedeiras de changaa  nos bares da Kiambu Road.
Odhiambo  tem hoje 41 anos e trabalha na construção civil. Não tem mulher e prefere as prostitutas ugandesas  de Nairobi, onde vai uma vez por mês.
"SUPORTANDO O INSUPORTÁVEL".
FUTEBOL KIKUYU (I):

Kabungi M'Twelle, defesa central, jogou nos Obi  Rollers entre 1997 e 2005. Não era muito alto, mas tinha a força de  um Nietzsche quase enfurecido. Diz-se que o avô foi pisteiro de Sir Alfred Pease, autor do  fabuloso The Book of the Lion e que chegou a dirigir safaris de leões  para Roosevelt. Não se sabe ao certo, mas a verdade é que a M´Twelle ninguém atirava bolas de golfe. Uma vez, num jogo particular, em Mandera, na fronteira com a Somália, atiraram-lhe duas laranjas. M'Twelle esperou que o jogo acabasse e dirgiu-se à pequena  bancada em madeira  com as laranjas sangradas apenas  numa das grossas manápulas. Fitou os rufias e disse que as queria  a devolver , mas não sabia quem era o dono. Os canalhas meteram o rabo entre as pernas e alçaram a trote desordenado como gnus.
Depois de reformado, ficou infectado com o  HIV e em 2008 contraiu SIDA. Vive agora  nos arredores  de Nairobi em casa de uma irmã freira e vê os jogos do campeonato inglês num canal chinês.

domingo, 20 de março de 2011

DA RAÇA:

Já os referi em dois  dos meus livros. Chamo-lhes monstros.  Ele é alto, duro e amigável, ela é baixa, de olhar furão e divertido. Andam ambos  pelos setenta  e muitos e perderam os dois únicos filhos: um na adolescência, o outro já adulto. Vejo-os duas a três vezes por ano. Vejo-os todos os dias.
Se alguém conseguisse isolar a alma deles. Todos os dias trabalham na fazenda, todos os dias tomam a medicação, todos  dias convivem com os   vizinhos .Esperam o que virá  e recordam o que houve.
É verdade, acreditam em Deus. Deve haver mais alguma coisa.

EFEITO DE PALCO:

Não é estranho que os actores políticos e mediáticos ( incluindo os comentadores) estejam  dissonantes até ao osso - o momento é gravíssimo mas continuamos a fazer política exactamente como fizemos até hoje -, porque existem factores que o explicam muito bem.
Os políticos de hoje são quase todos os dirigentes associativos de  ontem: domesticados, ignorantes para além dos títulos das lombadas e profissionalmente dependentes dos aparelhos partidários. Os jornalistas  e comentadores de hoje são quase  os mesmos que durante todos estes anos levaram ao monte os tais políticos. Entretiveram-se com intrigas de cordel, quase todas passadas na pequena Lisboa, e não me esqueço que troçaram de Manuela Ferreira Leite quando esta se limitou a constatar, em 2008, o que agora aqueles declaram como evidente. Fazem parte do mesmo efeito de palco.
Depois, um segundo factor mais  abrangente. O consenso  sobre o "momento gravíssimo" é artificial.Os políticos e os comentadores  dizem e escrevem o que  julgam  o povo querer ouvir. Imaginam que o povo quer ouvir perigo, gravidade, salvação. Se imaginassem que o povo queria ouvir receitas de bacalhau,  papagueariam receitas de bacalhau.
O que se pode concluir é da encenação. O espectáculo de gente pequena, unicamente preocupada com sondagens ( e com o jogo da cadeira do FMI), a desdizer-se nas televisões, enquanto  jornalistas  e comentadores avençados  anotam as falhas e as gaffes, é quase a única coisa real. O artifício reside na prova da própria realidade. Enquanto o público não reagir, o efeito de palco permanecerá.

quarta-feira, 16 de março de 2011

OS DEBATES POR PROCURAÇÃO:

A expressão é de Raymond Aron, que a  utiliza num capítulo das suas memórias. É uma parte que nos  diz directamente respeito, porque fala muito de Portugal e do PREC. Volto a ela muitas vezes, sobretudo sempre que vejo o dedinho acusador da duplicidade moral do Ocidente.
Aron  imagina o que teria acontecido se tivesse sido o Vietname do Sul a desrespeitar os Acordos de Paris, invadindo o Vietname do Norte: teria sido o trovão, a tempestade e os gritos. E recorda  o desprezo a que os intelectuais de esquerda,  humanistas e pacifistas,  franceses votaram Soljenitsin  enquanto execravam  o fascismo repressivo de Salazar.
Depois, debate a natureza da posição liberal, consciente das armadilhas que as suas paixões lhe armam, por contraponto à  posiçao ideocrática, que a partir de uma certa versão do mundo cimenta  a verdade de Estado.
A reler, sempre.

terça-feira, 15 de março de 2011

DOCA SECA:

Mau-Mau tem um estilo narrativo pouco ortodoxo. Posso vir a ser lapidado sem piedade, posso vir a ser presenteado com  leitores agradecidos. A questão é: como pensas?
Pensas agindo sobre os factos.  Na vida real é assim. Recebes a informação e sujeita-la às várias partes que te  compõem. Por exemplo: entras num bar e estás indeciso sobre  o que comes a acompanhar o café, ao mesmo tempo que  te recordas da última vez que  lá entraste , tudo isto enquanto miras a a vitrina com os bolso secos e procuras um que não está lá. Nas grandes stasis morais? Nem é bom falar.
O que tem piada na técnica narrativa é  a possibilidade de experientar tudo isto em sossego. A seco. O que tem piada na tentativa literária é  a possibilidade de falhar tudo. E não é a seco.

CLARO QUE HÁ DROGAS:

Mário, no meio do sarilho em que se meteu, relê  um capítulo  do seu livro que nunca será publicado. Uma aldeia, algures nas cercanias de S. Miguel de Acha, assim como quem sai do Fundão em direcção  a Idanha. É uma aldeia, mas opera por lá um traficante cultivado. Certa vez,  sob interrogatório, que teve de suportar durante a investigação  de uma  operação da polícia espanhola ( que existiu mesmo) , o homem explicou: Os americanos é que inventaram isto. Isto? Sim: O narcotráfico global e a proibição global.
Nem mais.

segunda-feira, 14 de março de 2011

EMIGRANTES ILEGAIS INTERNOS:

Se nos abstrairmos do passado ( a responsabilidade de milhares de "jovens" que não se importaram de frequentar cursos que sabiam ser de fachada) , a revolta tem sentido. A acusação de que exigem um emprego seguro, no estado ou não, não colhe. O problema é mais grave.
Não sei se é uma ou duas gerações, sei que são dezenas de milhares de licenciados que são hoje tratados como carne para canhão.  De certa forma, são emigrantes ilegais  no seu próprio país. É com eles estabelecida uma relação de poder na qual os emigrantes internos não podem jogar nenhum atributo ( para usar o código de Crozier e Friedberg) . Não representam nenhuma massa trabalhadora essencial ao país, não estão sindicalizados, não dispõem de uma bancada partidária. Do lado dos empregadores, joga-se umas  centenas de euros e  um estágio/cenoura  não-remunerado e , talvez, no caso do Estado, alguma benevolência.
A zona de incerteza de que dispõem os nossos emigrantes ilegais internos é muito reduzida.  Não há greve, não há corporações, não há apoio partidário limpído. Só vejo uma possibilidade, um atributo que possam jogar na relação  de poder: a violência pura  e dura.
Acontece que o estatuto de emigrantes ilegais internos é pouco consentâneo com tal escolha. Não os une qualquer cimento ideológico, religioso ou sequer cultural. Não foram educados na retórica reivindicativa e de protesto. Não possuem líderes capazes de os arrancar  desta moleza invasiva.
Teremos de aguardar.


domingo, 13 de março de 2011

O QUE NOS ACABA:

Mário, o personagem principal  de Mau-Mau deixou muito para trás. Como é dos livros, apenas o que não o incomodava ( a mulher, os filhos , o emprego). Levou para  a nova vida tudo o que faz dela uma velha vida: a doença, os autores preferidos, o gosto pelas favas tenras e novas.
A página  tantas,  uma cena irrelevante  faz a ligação entre os dois mundos. Mário compreende, todos compreendemos, que só há um mundo: o que nos acaba.

"ENGENHOS PALESTINIANOS  ARTESANAIS":


O bebé tinha três meses.  Os Mau-Mau poupavam os bebés. E as TV's lusas, se fosse ao contrário, abriam os telejornais  com a notícia.
 NEM MAIS:

Esta frase do Luís, embora um nadinha tonitruante, relaciona-se com o que escrevi sobre o aparelho intelectual-mediático dominante. Veremos  é  se a exigência da novidade sobreviverá aos aspirantes a  Badiou  e aos Lenines de Corroios.
Seja como for, é inegável que o aparelho mediático-intelectual está demasiado comprometido com o que causou a revolta, ainda que esta, infelizmente, só tenha aparecido quando faltou o dinheiro no bolso.
OU SIM OU SOPAS.
O GRANDE NADA:

A manifestação de ontem mostrou que não há deolindas nem geração à rasca. Óbvio ( recordei-me de uma blague  que publiquei no Mar Salgado sob o título "O Novo Portugal", que, basicamente, mandava o pessoal viver como no século XIX). É um erro trabalhar o que aí vem apenas  sob a lente geracional: estamos  todo no mesmo barco.
As motivações, como expus nos posts anteriores, são  demasiado práticas, mas é o que há e é melhor do que nada ( o grande  nada de todos estes anos). Uma das libertações que desejo é a do aparelho de dominação  centralista e intelectual. Vejam o caso de Pulido Valente : passou estes anos todos a explicar aos "indígenas" que a nossa pobreza é congénita, mas hoje ( Público) já atiça  as hordas aos políticos corruptos e incompetentes. Cuidadinho com estes convertidos. Lisboa, os media, os grupos de pressão que impõem as causas  que querem, os intelectuais alojados no aparelho de dominação. Esses são os alvos, escolham as flechas.
Do que se trata? Este aparelho tem reduzido o debate em Portugal a um conjunto de pequenos nadas. É fácil dizer que as pessoas  não se interessam  quando o menu  reza grossas de fatias de futebol e novela entaladas   em análise política de   fait-divers e intrigas de corredor. Mas há mais. Muito do que interessa às pessoas ( a segurança,  a corrupção política, o abandono de formas de vida tradicionais como a produção agrícola, etc) vem  por vezes à tona num discurso que é rapidamente  execrado pelo aparelho dominante: extremismo , arrepiam-se eles.
Seria  bom que os protestos vissem mais longe.
LE COUP (II):

Pouco importa se ontem  foram 30.000 ou 300.000 ( a contagem fica para os blogues governamentais, os oficiais e os oficiosos ). Amanhã serão muitos mais. O osso é outro.
Já vi que doeu a minha referência à chuva de notas, mas as coisas são o que são. A "sociedade inorgânica" ( pobre Gramsci) não vai para a rua protestar contra  um país com  cursos de merda e doutores de merda, com dez estádios  de futebol idiotas, Expos imbecis, auto-estradas paralelas, TGV's fantasmas. Não. Durante estes anos , os manifestantes estiveram entretidos em spa's foleiros, fitas de doutores  da mula ruça, cursos de gourmet por correspondência, cachets sacados a autarquias exangues,  etc. Quando lhes disseram que isto não podia continuar,  despacharam "a Velha" com um pontapé ( não era "estimulante") e elegeram o engº Sócrates com confortável maioria. Foi  há mil anos? Não, foi  há ano e meio.
Dói? Toma paracetamol e vai cantar o Milho Rei.
LE COUP:

Todas as reivindicações, protestos e queixas das várias gerações que hoje desfilaram despareceriam como por milagre se do céu chovessem empregos e notas de 500 euros.  É como quando fazemos  dieta  durante uns dias até os valores do colesterol voltarem ao normal.
Muitos dos que hoje protestaram ( artistas e músicos , por exemplo) encheram os bolsos durante  anos à conta de autarquias que agora estão falidas. Muitos do que hoje protestaram - estudantes, por exemplo - andaram anos a exibir, inchados que nem perus, trajes académicos de cursos de fachada que sabiam que eram de fachada.
Tirando um golpe militar, não estou a ver nenhuma refundação do regime.



sábado, 12 de março de 2011

GERAÇÃO CORNÉLIA:

Lá fui, portanto,  ao engano. Julguei  que ia assitir a uma manifestação de gente desesperada, zangada, carregada  de reichianos orgones negativos.  Em Coimbra, na Praça da República, um rancho  reuniu no centro da praça:  uma meia bancada ( se tanto)  do estádio municipal.  Um lingrinhas  com um megafone fazia-se ouvir menos  do que um simples estudante do José Falcão  a falar ao telemóvel debaixo da minha varanda. Ainda lhe berrei " estás a falar debaixo de água, ó caramelo", mas não adiantou.  A população era relativamente homogénea: anestesiada e sussurante. E não faltou  o cromo local a zurzir no imperialismo e mesmo assim com a convicção de um hamster hipnotizado.
À noite  vi as imagens das outras manifestações. O mesmo espírito piquenicão , mas, infelizmente,  com gente  a cantar o Milho Rei e a declamar poesia. Assim não vão lá. Não com a Cornélia.
SIMPOSIOFOBIA:

A Carla tem toda  a razão. A reunião  está para a eficiência  como a cadeira de rodas para o corredor de maratona.
A TAL GERAÇÃO (II):

O JPP tem razão quanto à  massagem  dos media à manifestação de hoje, mas não é nada que não se esperasse. Recapitulando com Kraus:  no jornalismo político  não importa o tamanho do alvo, mas a distância. Neste caso,  a colagem  ao "grito  de uma geração"  significa colar  o nariz ao vidro   embaciado:  apenas queremos  ver o  vapor, portanto, não queremos ver mais nada.
Por outro lado, é necessário compreender que este embrião de movimento ( pode acabar congelado)  não dispõe de uma máquina partidária com lugar marcado nos media. De certa forma, o enlevo mediático acaba por ser uma correcção da relação de forças.
Observar o terreno. É o que farei hoje, em Coimbra. What I see, what I see,  como Joseph Roth ensinava.


Nota: leio na imprensa local que os dirigentes da AAC preferem ir à manifestação de Lisboa. Nem  em tempo de crise a parolice descansa.


quinta-feira, 10 de março de 2011

quarta-feira, 9 de março de 2011

A TAL GERAÇÃO:

 Envelhecer é aborrecido, mas não deve roubar lucidez. O tom paternalista  com que a dita geração à rasca/ deolinda é tratada é sintoma de encortiçamento mental. Começa porque não  se paternaliza a realidade. Depois, regista-se  um tom irritado - " o que querem estes tipos? - que indicia , pelo menos, um sentimento de culpa: o que criámos?
A tal geração  não é espontânea. É produto de escolhas feitas pelas anteriores. Por exemplo: quando passámos todos estes anos a viver à  grande e à  francesa, é óbvio que estimulámos um ilusório clima de bem estar. E quando fornecemos  à tal geração diplomas para trabalhar  em cenários inexistentes, por que haveríamos  de esperar gratidão?
Sei bem que nesta história não há inocentes. Dei , durante muitos anos, aulas no ensino superior privado. Conheci a indigência  intelectual e o novo-riquismo de pechisbeque de muitos elementos da tal geração. Acontecem duas coisas:  estes moços não são todos iguais e, ainda que fossem, a responsabilidade seria sempre  do mais velhos. Dos instalados, como eles, mal ou bem,  lhes chamam.
Um sintoma de  enfraquecimento  do laço social é o da fractura temporal.  Não me refiro a costumes, bandas de música ou roupas. Falo de uma fractura mais reptiliana. A tal geração  já não quer, como as anteriores, mudar o mundo dos mais velhos. A tal geração quer um mundo igual ao dos mais velhos.

 PESSOAS-LUGARES:

Ambivalente. As descrições  completas dos personagens, como nos velhos policiais americanos, sempre me souberam a fastio. Em Mau-Mau, o que havia para  sair saiu naturalmente. Quando estás  a olhar para alguém, estás a olhar para marcas. E às marcas dás nomes, fazes comparações com sinais que  conheces.
Assim é na minha história. As pessoas  são lugares.

segunda-feira, 7 de março de 2011

PREFIRO OS KIKUYU:

Com a Liga Norte, o regresso da normalidade, o regresso da violência  impune. No Porto e em Braga, jogadores do Benfica foram sistematicamente  alvo de ofensas corporais graves. Estavam desarmados, indefesos e não provocaram os seus agressores. O que me acontece se  me puser a alvejar  os transeuntes  com bolas de golfe arremessadas da minha janela?
Não compreendo por que motivo Cardozo e Carlos  Martins não intentam uma acção cível contra os responsáveis da Liga Norte. Uma indemnização  à americana, digamos, de dez milhões de euros, seria interessante e agitaria o vespeiro.
QUANDO TUDO FALHA:


Nada se modificou desde  a última vez que escrevi  sobre a situação política. Não obstante, tenho passado os olhos por rolo imensos de arguta análise. Não há contradicção: um conjunto de pessoas encerradas num elevador avariado  não aguarda o socorro em silêncio.
A ausência, quase total,  de sentido colectivo  no inconsciente  grupal português ( que não sei explicar) continuará a permitir ,  durante  algum tempo, a fragmentação do trabalho social para a resolução dos problemas. Os partidos de poder continuarão preocupados com sondagens enquanto geram as futuras gerações de controleiros profissionais, os  partidos de protesto continuarão a tentar capitalizar o desespero. As pesoas comuns terão um único objectivo: resistir e salvar o que é seu.
Não creio que o esboço de Rui Rio valha alguma coisa.  Num condomínio que se endividou até à morte e em que os vários grupos organizados de  condóminos  nem querem ouvir falar do véu de ignorância  ( a experiência de Rawls),  a solução dificilmente  partirá de um rearranjo colectivo.
Sei que a hipótese de  uma solução é arriscada, mas um liberal à moda antiga  acredita sempre no indivíduo. Nos partidos, nas escolas, nas empresas, nos media, existem com certeza  homens e mulheres indiferentes à letargia e à subserviência. Não falo de condutores do povo ( demagogos), falo de acções individuais de pessoas  descomprometidas com os  aparelhos de dominação política , económica  e intelectual. Uma espécie de gente  a quem falta uma coisa: ambição de glória.
 As grandes mudanças não se fazem por inspiração divina, fazem-se por necessidade.

domingo, 6 de março de 2011

A HISTÓRIA:

Mau-Mau  é uma história. Um tipo vulgar envolve-se numa trama perigosa. O que todas as histórias têm de saber fazer é encaixar-se no ambiente. A original revolta Mau-Mau, no Quénia,  foi perfeita nesse sentido. Ruark descreveu-a com temple e conhecimento  de facto.
Em Mau-Mau, há a revolta do ambiente - um bairro remediado de uma qualquer cidade -   e a revolta do personagem: um neurótico de livro. E haverá a  minha, se não gostarem.


sexta-feira, 4 de março de 2011

O QUE FAZER QUANDO:

O personagem principal de Mau-Mau está doente. Tem a vida a prazo. Já escrevi  muito sobre isto ( em breve as capas dos outros  livrinhos aí na barra lateral) , já me fartei de especular na zona central, como dizem os  teóricos da bola.
A literatura   liberta, não há dúvida. O personagem faz aquilo que deve ser feito: arranjou  outra vida.
UMA NOVO PADRÃO:

O personagem principal  de Mau-Mau não usa o metro, a milha ou a légua. Usa um automóvel.
Enquanto revia o texto, lembrava-me sempre de uma pessoa que tenho em terapia.  Tem cancro e  está amarrada a uma cadeira  de rodas. Muitas sessões fizemos em torno de vinte centímetros: a distância a que frequentemente está o computador quando ela vai para o sofá. Vinte centímetros.
ULTRA MAU-MAU (IV):
Pensamentos, emoções e relações. São bons, muito bons:


 "The work of Hizb ut-Tahrir is to carry the Islamic da'wah in order to change the situation of the corrupt society so that it is transformed into an Islamic society. It aims to do this by firstly changing the society's existing thoughts to Islamic thoughts so that such thoughts become the public opinion among the people, who are then driven to implement and act upon them. Secondly the Party works to change the emotions in the society until they become Islamic emotions that accept only that which pleases Allah (swt) and rebel against and detest anything which angers Allah (swt). Finally, the Party works to change the relationships in the society until they become Islamic relationships which proceed in accordance with the laws and solutions of Islam. These actions which the Party performs are political actions, since they relate to the affairs of the people in accordance with the Shari'ah rules and solutions, and politics in Islam is looking after the affairs of the people, either in opinion or in execution or both, according to the laws and solutions of Islam".

Como está a vossa memória de curta duração?

quinta-feira, 3 de março de 2011

O PS ESTÁ A ENTRAR NA ANORMALIDADE?

O Miguel Abrantes agora é leitor atento, e concordante, do JPP. Em terra Mau-Mau, ou seja, no bairro onde vive o personagem, os maus também passam  a bons num ápice.

A CIDADE:

Em Mau-Mau não há cidade, só um bairro. É um resto de rasto que ficou para trás - velhos, desempregados, alguns estudantes, malandros.
As casas são casas de caracóis, secas e pontualmente  ocupadas.
ULTRA MAU-MAU (III):

Vamos desfiando, ensaiando. Um dos argumentos utilizados para ridicularizar a suspeita foi o da urgência democrática evidente. Claro que na Líbia não vemos  nada disso,  mas não importa, vimo-lo no Egipto.  O osso é outro. Ofereçamos a palavra  a Edward Said*:  You don't always need to begin  at the beginning; you could take  advantage of the overdevelopment of this dominated  apparatus and intervene strategically  at certain moments. Na altura era o que Said  propunha para a defesa da causa palestiniana: nenhum aparelho de dominação - mediática, industrial  e cultural - é absoluto. Há sempre falhas, sempre oportunidades de intervenção. O executivo da Google que foi impedido de falar,  pela Irmandade  Muçulmana,  na mega-manifestação realizada no Cairo  depois da queda de Mubarak , chegou atrasado ( para  seu grande  espanto, calculo).
O que quero dizer é simples. O facto de existirem aspirações  regionais, práticas e até seculares, não impede que a orquestra tenha um maestro. Mais tarde veremos se o maestro não esteve  lá desde  o início, mas isso é outra conversa.


* Power, Politics and Culture, Interviews with Edward Said,  Vintage Books, 2001.

quarta-feira, 2 de março de 2011

JUDEUS E ANONIMATO:

Prefiro um estilista da Dior idiota às cobardes e aos pulhas que dizem exactamente o  mesmo , mas utilizando nickzinhos para salvaguardar o  bom ( ?) nome.
ULTRA MAU-MAU (II):

Lemos por aí  comparações  da insurgência árabe-africana com o que aconteceu para lá da Cortina de Ferro  a partir de 1989. Juan Linz e Alfred Setphen publicaram em 1996 (  Johns Hopkins UP) um bom guia sobre esse acontecimentos ( até o estendem a outras zonas, como Portugal, Chile, etc) sob o título Problems of Democratic Transition and Consolidation.
Uma primeira provocação: a Europa  comunista estava  sob a pata de ferozes ditaduras, não estava? E recordam-se  de que foi preciso Gorbatchov, a partir de Moscovo ( o peixe apodrece pela cabeça) ,  João Paulo II,  Lech Walesa e muito tempo para os regimes soçobrarem,  não recordam? Então digam lá: como foi possível que, em apenas um mês ,   de Tripoli ao Cairo, passando por Tunes, tudo tenha acontecido à velocidade  a que assistimos?
Uma primeira leitura tem de ser esta: não houve nada de espontâneo. Contaram-vos uma história da carochinha.
ULTRA MAU-MAU (I):

Ora bem. E a venda foi organizada pela União Europeia , pelo que houve mais parceiros. A vesânia vai mais longe. Como na Casa Branca está um bom, se os marines, ou a NATO,  intervierem, assistiremos  a algo notável: a Europa dos media gauche-pacifistas a  aplaudir  a invasão  de território africano  pelos forças do capitalismo e seus lacaios. E o Irão rosna.
Há muito de Mau-Mau na aparente desordem no norte de África: tudo parece tão espontâneo que, obviamente, não o  é.

( connt.)
Técnica:

Uns pequenos problemas com as definições do blogue ( comentários, links, etc) . A normalidade segue dentro de momentos.

terça-feira, 1 de março de 2011

AS MULHERES DE MAU-MAU (II):

A minha  mulher de sonho não poderia ser muito inteligente nem culta ( antigos, matemática, etc).  Deixem em paz as teorias  novecentistas sobre a incapacidade erótica dessa espécie de senhora. Não. A questão é mais simples: para que quereria ela um homem para  a vida?
Uma minhota, ou italiana, ruiva ou rapoila, de dedos finos, que me cortasse o cabelo e cozinhasse melhor do que eu. Talvez em livro.
MOLEDO:

Há uma referência ( encoberta) a Moledo  em Mau-Mau.  Uma tristeza, crianças pequenas, um tempo cravado.
AS MULHERES DE MAU-MAU:

Há duas principais. Uma é a ex do personagem, a outra é um antigo flirt. Mulheres directas e determinadas. A página tantas, a ex é descrita como fria e decidida. "E podia ser fria  e hesitante?",  pergunta  ele.
A melhor pergunta acabou por não ficar no livro: "E podia ser quente e decidida?" Não.
PIOR:

Escrever uma novela porque "se tem algo a dizer ao mundo", porque  não se tem nada para fazer, porque se quer fugir aos clichés do "ao nível geral das merdas e assim", porque  dizem que escrevemos  bem? Zero.
A única razão admissível é o prazer.
SÍNTESE:

Há escritores que conseguem dizer em apenas duas páginas aquilo para o qual   às vezes eu preciso de duas linhas inteiras.

( Karl Kraus, Dicta and Contradicta)
BANANAS:

É um prazer arriscar uma novela sem ter de ouvir os Martin Amis da Caparica sobre as regras da escrita criativa.  Vantagem de viver em Coimbra e  sofrer de simposiofobia.

DAMSELL & PENNY:

Ruark conta o episódio em Your Guns Go With You,  originalmente publicado na Life, em Fevereiro de 1953. Duas ladys brancas, absolutely colonial, estão sentadas na sala do rancho, decorada com cabeças de bichos caçados por elas. Alguns  Mau-Mau  controlaram os house-boys das patroas e dois deles irrompem na sala com simis nas mãos. Uma das mulheres é agarrada pelos cabelos e dobrada sobre uma cadeira, quando Damsell, a cadela boxer ( a outra era a Penny), "salta  longa  e graciosamente" sobre o homem e ferra-lhe os maxilares  no braço que segura a simi. E ferradura de boxer , meus amigos, é noivado certo. O resto do episódio é o esperado ( tiros, reboliço,  homens, cães e mulheres, uns por cima dos outros dentro de uma sala).
Kikuyus  contra kikuyus, brancos  degolados e brancos poupados, confusão e caos, terrores nocturnos, visitas inesperadas. O clima ideal ( e apenas o clima)  que transpus, devidamente adamado, para um qualquer bairro modesto de uma cidade perto de si.