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segunda-feira, 28 de março de 2011

PARECE QUE SIM:

Que Mau-Mau será publicado. Vamos ver. Estou curioso para saber  a reacção das  pessoas  a um livro diferente. Não creio que seja arrumado na prateleira da literatura de aeroporto, mas também não me parece que venha sequer a ser considerado literatura. Não carrega profundas descrições tipológicas, muito menos penetrantes reflexões  filosóficas.
É uma história simples, mas julgo que vai agarrar o leitor que entre  na táctica. Então para quê publicar o livro? Porque é contra a esperança, salvo se esta vier com um prato de favas novas. E tenras.

quinta-feira, 24 de março de 2011

FUTEBOL KIKUYU (III):

Augustine Omondi jogou   (  entre  1985 e 2001)  toda  a vida no Chemelil Sugar FC, pertencente à Chemelil Sugar Company, no Nyando. Vivia em Kisumu ( era ajudante de mecânico)  e fazia todos os dias um total de 100 quilómetros. O clube da empresa oferecia boas condições, mas Augustine  não sabia isso. Não lia jornais, não via televisão ( pelo menos programas desportivos como os europeus), não viajava. O seu prazer  era ficar lá na ponta direita, receber na passada as bolas altas que  os companheiros lhe punham à frente, correr desalmado para a linha de fundo e centrar. Fazia lembrar o Padinha, esse extremo-direito lançado pelo Lajos Baroti ( ou pelo Eriksson, já não me lembro bem), que se especializou também  num único movimento.
Augustine era daqueles homens tão simples, que nunca estão verdadeiramente alegres nem zangados. Comia o que havia  - primeiro em casa da mãe, depois em casa de Aleta, companheira que lhe deu três filhos-, bebia o que lhe davam, fazia o que tinha de fazer. Estava sempre tudo kabisa msuri ( absolutamente bem). Não tinha muitos amigos porque não era de disputas.
No ano passado, soube que Augustine estava doente de coisa  ruim. Não entendi  tudo, talvez uma infecção mal tratada, um foco pneumónico que  deu para  o torto. Imagino-o sozinho, no pequeno hospital em Kisumu. Sempre sereno,  educado e paciente.
Quem diz que vemos a força?
A TODOS:

Os que linkaram este Mau-Mau, o meu asante ( obrigado) , é o que vos digo kwa furama ( com satisfação). São tantos que  vai sem links: O Eduardo Pitta, o Luís  M. Jorge, o Cahimbo de Magritte, Os Comediantes, o Espectador Interessado,  o Pedro Rolo Duarte, a Isabel Prata, O Luís Januário, o Delito de Opinião ( o Pedro Correia e a Laura Ramos) , O Angulo Morto, O Albergue Espanhol ( Luís Naves).

( em actualização)

terça-feira, 22 de março de 2011

NESTA ALTURA DO CAMPEONATO:

Estive  a rever o terceiro golo de ontem, do Gaitán:  a melhor jogada colectiva  da Liga. Uma das coisas que me tem enternecido é constatar a raiva da tropa de choque ( os Mau-Mau atacavam de frente, mas esse eram valentes e estes são iguais  ao calhaus que atiram emboscados)  do FCP , sempre impune, nesta altura do campeonato.
Eles  estão à frente, o melhor futebol é nosso.  E não há nada a fazer.
 FUTEBOL KIKUYU (II):

Freddy Odhiambo nunca soube fintar. Quando jogava na rua, em Thika,  40 km  a nordeste de Nairobi, o seu pensamento  era colonial. O seu tio ,  não era bem tio, era um dos amantes da sua mãe  - prostituta nas horas que  os oito  filhos lhe deixavam vagas - contava-lhe antigas histórias de caça dos homens brancos   nas margens do rio Thika  ( que faz parte da bacia do Lago  Tana) e também mais  para oeste,  no lago Naivasha ( de Nai'posha, águas selvagens). Aí caçou um branco chamado Black, Alan Lindsey Black. Este caçador branco tinha nome de negro e caçou leões com um rancheiro, e também caçador, Paul Rainey, dono de milhares de cabeças de gado  no Falcon Glen, nas margens do lago. Black caçava com cães , o que levou  a que um oficial inglês , encarregado das licenças de caça, tivesse relatado para Londres:  Foi quem matou mais leões este ano ( 1911), mas não é certo que o seu método seja desportivo.
Odhiambo conseguiu  chegar à primeira  equipa do Thika United em 1989. Tinha então 19 anos. Como não sabia fintar e andava   sempre com  fotocópias velhas e  amarfanhadas de livros  de histórias de white-hunters, não teve vida fácil junto do seus companheiros. Odhiambo gostava de jogar a trinco e via os médios  adversários como os  cães de Black. Ele era o leão  que não sabia fintar. Ainda assim, acabou por conquistar um lugar na equipa, mas os seus camaradas  nunca o convidaram  para as bebedeiras de changaa  nos bares da Kiambu Road.
Odhiambo  tem hoje 41 anos e trabalha na construção civil. Não tem mulher e prefere as prostitutas ugandesas  de Nairobi, onde vai uma vez por mês.
"SUPORTANDO O INSUPORTÁVEL".
FUTEBOL KIKUYU (I):

Kabungi M'Twelle, defesa central, jogou nos Obi  Rollers entre 1997 e 2005. Não era muito alto, mas tinha a força de  um Nietzsche quase enfurecido. Diz-se que o avô foi pisteiro de Sir Alfred Pease, autor do  fabuloso The Book of the Lion e que chegou a dirigir safaris de leões  para Roosevelt. Não se sabe ao certo, mas a verdade é que a M´Twelle ninguém atirava bolas de golfe. Uma vez, num jogo particular, em Mandera, na fronteira com a Somália, atiraram-lhe duas laranjas. M'Twelle esperou que o jogo acabasse e dirgiu-se à pequena  bancada em madeira  com as laranjas sangradas apenas  numa das grossas manápulas. Fitou os rufias e disse que as queria  a devolver , mas não sabia quem era o dono. Os canalhas meteram o rabo entre as pernas e alçaram a trote desordenado como gnus.
Depois de reformado, ficou infectado com o  HIV e em 2008 contraiu SIDA. Vive agora  nos arredores  de Nairobi em casa de uma irmã freira e vê os jogos do campeonato inglês num canal chinês.

domingo, 20 de março de 2011

DA RAÇA:

Já os referi em dois  dos meus livros. Chamo-lhes monstros.  Ele é alto, duro e amigável, ela é baixa, de olhar furão e divertido. Andam ambos  pelos setenta  e muitos e perderam os dois únicos filhos: um na adolescência, o outro já adulto. Vejo-os duas a três vezes por ano. Vejo-os todos os dias.
Se alguém conseguisse isolar a alma deles. Todos os dias trabalham na fazenda, todos os dias tomam a medicação, todos  dias convivem com os   vizinhos .Esperam o que virá  e recordam o que houve.
É verdade, acreditam em Deus. Deve haver mais alguma coisa.

EFEITO DE PALCO:

Não é estranho que os actores políticos e mediáticos ( incluindo os comentadores) estejam  dissonantes até ao osso - o momento é gravíssimo mas continuamos a fazer política exactamente como fizemos até hoje -, porque existem factores que o explicam muito bem.
Os políticos de hoje são quase todos os dirigentes associativos de  ontem: domesticados, ignorantes para além dos títulos das lombadas e profissionalmente dependentes dos aparelhos partidários. Os jornalistas  e comentadores de hoje são quase  os mesmos que durante todos estes anos levaram ao monte os tais políticos. Entretiveram-se com intrigas de cordel, quase todas passadas na pequena Lisboa, e não me esqueço que troçaram de Manuela Ferreira Leite quando esta se limitou a constatar, em 2008, o que agora aqueles declaram como evidente. Fazem parte do mesmo efeito de palco.
Depois, um segundo factor mais  abrangente. O consenso  sobre o "momento gravíssimo" é artificial.Os políticos e os comentadores  dizem e escrevem o que  julgam  o povo querer ouvir. Imaginam que o povo quer ouvir perigo, gravidade, salvação. Se imaginassem que o povo queria ouvir receitas de bacalhau,  papagueariam receitas de bacalhau.
O que se pode concluir é da encenação. O espectáculo de gente pequena, unicamente preocupada com sondagens ( e com o jogo da cadeira do FMI), a desdizer-se nas televisões, enquanto  jornalistas  e comentadores avençados  anotam as falhas e as gaffes, é quase a única coisa real. O artifício reside na prova da própria realidade. Enquanto o público não reagir, o efeito de palco permanecerá.

quarta-feira, 16 de março de 2011

OS DEBATES POR PROCURAÇÃO:

A expressão é de Raymond Aron, que a  utiliza num capítulo das suas memórias. É uma parte que nos  diz directamente respeito, porque fala muito de Portugal e do PREC. Volto a ela muitas vezes, sobretudo sempre que vejo o dedinho acusador da duplicidade moral do Ocidente.
Aron  imagina o que teria acontecido se tivesse sido o Vietname do Sul a desrespeitar os Acordos de Paris, invadindo o Vietname do Norte: teria sido o trovão, a tempestade e os gritos. E recorda  o desprezo a que os intelectuais de esquerda,  humanistas e pacifistas,  franceses votaram Soljenitsin  enquanto execravam  o fascismo repressivo de Salazar.
Depois, debate a natureza da posição liberal, consciente das armadilhas que as suas paixões lhe armam, por contraponto à  posiçao ideocrática, que a partir de uma certa versão do mundo cimenta  a verdade de Estado.
A reler, sempre.

terça-feira, 15 de março de 2011

DOCA SECA:

Mau-Mau tem um estilo narrativo pouco ortodoxo. Posso vir a ser lapidado sem piedade, posso vir a ser presenteado com  leitores agradecidos. A questão é: como pensas?
Pensas agindo sobre os factos.  Na vida real é assim. Recebes a informação e sujeita-la às várias partes que te  compõem. Por exemplo: entras num bar e estás indeciso sobre  o que comes a acompanhar o café, ao mesmo tempo que  te recordas da última vez que  lá entraste , tudo isto enquanto miras a a vitrina com os bolso secos e procuras um que não está lá. Nas grandes stasis morais? Nem é bom falar.
O que tem piada na técnica narrativa é  a possibilidade de experientar tudo isto em sossego. A seco. O que tem piada na tentativa literária é  a possibilidade de falhar tudo. E não é a seco.

CLARO QUE HÁ DROGAS:

Mário, no meio do sarilho em que se meteu, relê  um capítulo  do seu livro que nunca será publicado. Uma aldeia, algures nas cercanias de S. Miguel de Acha, assim como quem sai do Fundão em direcção  a Idanha. É uma aldeia, mas opera por lá um traficante cultivado. Certa vez,  sob interrogatório, que teve de suportar durante a investigação  de uma  operação da polícia espanhola ( que existiu mesmo) , o homem explicou: Os americanos é que inventaram isto. Isto? Sim: O narcotráfico global e a proibição global.
Nem mais.