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sexta-feira, 29 de abril de 2011

A HISTÓRIA:

No Ipsilon de hoje. Fala-se dos novos autores e da escola da narração. A minha pequena novela é uma história, mas eu não sou, de certeza, um novo autor ( supondo que  a novela será publicada). Liberto desta grilheta, comamos o ifunde.
Pode-se contar uma história fazendo de conta que não? Pode. Cormac McCarthy fá-lo em Meridiano de Sangue. Pode não se contar uma história fazendo de conta que sim? Pode. Vian fá-lo em Irei cuspir-vos nos túmulos.
Em Mau-Mau, a história é simples. Um engano, uma execução que corre mal e eis um personagem metido numa alhada.Não há intenção de fazer com que a história ilustre  ou suporte nada. É a reacção do personagem ( o  leitor poderá observar  de uma forma, digamos, muito especial)  que  compõe  a história. Como na vida, embora o compreendamos  sempre  tarde demais.

quinta-feira, 28 de abril de 2011

CONTINUANDO:

Fazer da biografia um lugar artificial. Sempre ( é uma obsessão) Tolstoi e morte de Ivan Ilitch. O relambório do moribundo pode ser  o nosso relambório, até porque é sobre  a vida que não tivemos ( nos comentários aludo à minha interpretação). António de Sousa ( está aí em baixo na secção dos esquecidos) imaginava-se em Calecut  posto a ferros  por Vasco da Gama, London cruzou  a experiência com a possibilidade de ser um cão de matilha, etc.
O osso. Fazer da biografia um lugar artificial autoriza-nos a abandonar   os nossos limites - transportando a carga  real - e regressar com novidades. Só a escrita consegue construir de raíz  uma vida que poderia ter sido, com todos os detalhes do que não foi.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

EXACTO:

Mas é necessário  fazer da  biografia um lugar artificial.
 
E AINDA OUTRO ESQUECIDO:

António de Sousa. Portuense  de nascimento ( 1898) , anacoreta de Algés ( na rua Luís de Camões) depois da morte da mulher ( Agora fiquei só eu / e a cinza do meu  cigarro/ e os livros da minha estante).
Livros. Caminhos, Sete LuasIlha Deserta e duas edições  com desenhos de  Manuel Ribeiro Pavia, que muito daria para encontrar. Regressarei a este poeta às avessas com outros cuidados, mas não se pode esquecer quem escreve assim:

Mentindo, sorrindo,
Me fui consentindo.

terça-feira, 26 de abril de 2011

sábado, 23 de abril de 2011

TELÚRICO:

Na  Taça dos Amendoins, depois de um soco noutra taça, um estádio cheio. 
Podem rosnar durante milénios, podem comprar  vitrinas maiores, podem continuar a inventar perseguições, podem  ( e devem) regionalizar até ao mindinho, podem fazer o que quiserem: olharão sempre  de baixo.
 NÃO ESQUECER:


Sebastião da Gama. Passei a apreciar  mais a  poesia de  Sebastião da Gama, quando, há cinco ou seis anos , li um texto  de Ruy Belo na Rumo.  Gama vagueou por revistas e projectos, mas faz parte dos que não receberam a benção revolucionária pós-74. Um dos pecados deve ter sido o de ter colaborado  na Távola Redonda ( de Mourão-Ferreira) onde também escrevia Goulart Nogueira. Este bicho do teatro  ( traduziu Kleist e Strindberg e adaptou Goethe e Racine para a rádio) foi um dos intelectuais do regime. Escreveu  abundantemente   nos orgãos próprios e dirigiu a Oficina de Teatro da UC , um dos pontos de apoio da extrema (e da pouco extrema) -direita coimbrã ( Lucas Pires, Júdice, etc) reunida em torno do Combate e da  Tempo Presente (  Valle de Figueiredo,  Sá e Cunha, etc).
Já vai longa  a digressão. Retornemos a Sebastião, dono de uma poesia directa e de uma  morte tuberculínica  sob os poentes do Portinho da Arrábida. Este vale a vossa visita:


Os que vinham da Dor tinham nos olhos
estampadas verdades crudelíssimas.
Tudo o que era difícil era fácil
aos que vinham da Dor directamente

( Campo Aberto, 1951)

sexta-feira, 22 de abril de 2011

E AINDA OUTRO ESQUECIDO:

Luís Veiga ( Maria)  Leitão ( 1915-1987). De Moimenta da Beira  ao Brasil ( exílio político)  e por fim o Porto.  Seara Nova e Vértice, claro, mas também trabalhou  com Melo Viana, Egito Gonçalves e Rebordão Navarro nos portuenses fascículos  Notícias do Bloqueio.  É descrito como poeta-militante,  coisa que não sei o que significa.  Também não é muito lembrado e, na minha opinião, sem grande celeuma. Só que na poesia  há sempre a contradição. Assim, recordo-o aqui com este pedaço  militante e  bom:

Que nos  cubram de  ameaças e de espanto
Que nos cortem as asas mas o canto
Voa muito mais largo do que as penas.

( Latitude, 1950)

quinta-feira, 21 de abril de 2011

LÁ EM CIMA SERIA ( É) ASSIM:

Se tivéssemos no banco um benfiquista, não teriámos  visto um tipo abúlico e  conformado,   à espera do 0-3 para mexer na equipa;  e teríamos tido  um gajo, no final, a atirar-se ao fora de jogo no segundo golo e à expulsão perdoada a Sapunaru. Depois, só depois, veríamos o tal tipo  envergonhar-se do jogo da sua equipa.
Nem tudo foi mau-mau. A minha filha irrompeu na sala, onde eu e o meu filho assistíamos  ao enterro,   e atira naquele jeito feminino de ordenar o mundo: "Então estava 0-0 ao intervalo e agora está 3-0????".  Dei-lhe o  berro mais forte que até hoje ouviu e expulsei-a do recinto. A catraia  aprendeu que a fenomenologia  da causalidade não se aplica nestas situações.

quarta-feira, 20 de abril de 2011

MAIS ESQUECIDOS:

João Brito Câmara. Lisboeta tornado madeirense, também passou por Coimbra. Considerado menor e , porventura, justamente esquecido, dá-lhe de vez em quando para usar bem a lente. Como neste Esplanada à Tarde ( incluído  em Poesias Completas, 1967, posterior à sua morte) :

Alguém que passa e fala e vai embora,
Uma janela ou outra que já arde.